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A Importância da Cadência Semanal na Terapia: Compromisso ou Capricho?

Atualizado: 14 de jul.


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"Será que eu ainda preciso vir toda semana?"

Essa pergunta, aparentemente inofensiva, costuma surgir em um ponto muito específico do processo terapêutico: quando o paciente começa a se sentir melhor.

É quase como se o alívio dos sintomas trouxesse junto uma “brilhante ideia”: talvez seja hora de reduzir a frequência das sessões. Quinzenal, quem sabe? Afinal, tudo parece estar se acalmando... Mas será que esse é realmente o melhor momento para espaçar?

A armadilha do alívio

Quando o sofrimento diminui, é natural desejar mais leveza, menos compromissos e menos dor. No entanto, do ponto de vista psíquico, o alívio não significa que a dor foi elaborada — significa, na maioria das vezes, que ela começou a se mover, a ganhar forma, nome, voz.

É nesse exato ponto que o inconsciente começa a revelar o que estava encoberto pelo sintoma. E é também nesse momento que muitas resistências ganham força: racionalizações, dúvidas, justificativas aparentemente coerentes para interromper ou reduzir a frequência.

A cadência semanal, nesse contexto, é proteção. É continuidade. É a sustentação simbólica necessária para aprofundar — e não apenas aliviar — aquilo que trouxe a pessoa até ali.

Por que a frequência semanal é tão importante?

A regularidade da escuta, no mesmo dia, no mesmo horário, com a mesma presença do analista, não é um detalhe técnico. Ela estrutura o processo psíquico. A seguir, compartilho alguns pontos que explicam por quê:

  • Fortalece o vínculo terapêutico – o alicerce da segurança emocional necessária para que o paciente se permita sentir, falar e elaborar.

  • Permite a continuidade simbólica do processo interno – evitando cortes emocionais que comprometem a metabolização das experiências.

  • Estabelece um ritmo confiável para quem viveu instabilidade emocional – o que é especialmente importante para pacientes com vivências de medo intenso, insegurança ou ambientes emocionais imprevisíveis.

  • Favorece o enfrentamento gradual das angústias – sejam elas medos, traumas, fobias, compulsões ou conflitos mais sutis. A frequência protege o paciente de um mergulho abrupto ou de retrações defensivas.

  • Ajuda a simbolizar respostas emocionais desorganizadas – como choro intenso, reações corporais, evasivas ou silenciamentos, que precisam ser compreendidas e acolhidas, e não apenas evitadas.

“Mas é por causa do financeiro…”

Essa é uma preocupação legítima, e jamais deve ser desconsiderada. Porém, é preciso entender que a cadência quinzenal é uma indicação clínica, não uma escolha meramente prática ou baseada na melhora inicial dos sintomas.

Espaçar sem sustento interno pode trazer riscos reais:

  • Retorno dos sintomas com mais intensidade

  • Surgimento de novos sintomas

  • Estagnação no processo

  • Interrupções simbólicas que dificultam a elaboração psíquica

É por isso que essa decisão deve ser conversada com o analista, não tomada unilateralmente. O risco de transformar um alívio momentâneo em uma falsa cura é grande.

O que acontece nas sessões em que “não tenho nada para dizer”?

Esse é, muitas vezes, o lugar fértil da análise. Quando a urgência cede, abre-se espaço para que conteúdos mais simbólicos e profundos emerjam. É nesse suposto “vazio” que surgem os sonhos, os lapsos, os pequenos grandes detalhes do cotidiano que revelam muito mais do que o sintoma em si.

É quando o sintoma sai de cena que o sujeito pode, enfim, começar a aparecer.

Psicanálise não é apagar incêndio

É compreender por que a casa pegou fogo. É descobrir quem você é, quando não está apenas sobrevivendo. É aprender a construir moradas internas mais sólidas, com espaço para sentir, elaborar e viver com mais inteireza.

Um convite à reflexão

Se você está nesse ponto do processo e cogita espaçar, pergunte-se com honestidade:

"Estou me despedindo da dor, ou fugindo da profundidade?"

A frequência semanal é mais do que um ritmo de agenda. É um ato de presença consigo mesmo, um compromisso com o que há de mais essencial em você.


Autora: Gisele Chiappim

Psicóloga | Psicanálise | Neuropsicologia

 
 
 
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