A Importância da Cadência Semanal na Terapia: Compromisso ou Capricho?
- Gisele Chiappim Psicóloga
- 11 de jul.
- 3 min de leitura
Atualizado: 14 de jul.

"Será que eu ainda preciso vir toda semana?"
Essa pergunta, aparentemente inofensiva, costuma surgir em um ponto muito específico do processo terapêutico: quando o paciente começa a se sentir melhor.
É quase como se o alívio dos sintomas trouxesse junto uma “brilhante ideia”: talvez seja hora de reduzir a frequência das sessões. Quinzenal, quem sabe? Afinal, tudo parece estar se acalmando... Mas será que esse é realmente o melhor momento para espaçar?
A armadilha do alívio
Quando o sofrimento diminui, é natural desejar mais leveza, menos compromissos e menos dor. No entanto, do ponto de vista psíquico, o alívio não significa que a dor foi elaborada — significa, na maioria das vezes, que ela começou a se mover, a ganhar forma, nome, voz.
É nesse exato ponto que o inconsciente começa a revelar o que estava encoberto pelo sintoma. E é também nesse momento que muitas resistências ganham força: racionalizações, dúvidas, justificativas aparentemente coerentes para interromper ou reduzir a frequência.
A cadência semanal, nesse contexto, é proteção. É continuidade. É a sustentação simbólica necessária para aprofundar — e não apenas aliviar — aquilo que trouxe a pessoa até ali.
Por que a frequência semanal é tão importante?
A regularidade da escuta, no mesmo dia, no mesmo horário, com a mesma presença do analista, não é um detalhe técnico. Ela estrutura o processo psíquico. A seguir, compartilho alguns pontos que explicam por quê:
Fortalece o vínculo terapêutico – o alicerce da segurança emocional necessária para que o paciente se permita sentir, falar e elaborar.
Permite a continuidade simbólica do processo interno – evitando cortes emocionais que comprometem a metabolização das experiências.
Estabelece um ritmo confiável para quem viveu instabilidade emocional – o que é especialmente importante para pacientes com vivências de medo intenso, insegurança ou ambientes emocionais imprevisíveis.
Favorece o enfrentamento gradual das angústias – sejam elas medos, traumas, fobias, compulsões ou conflitos mais sutis. A frequência protege o paciente de um mergulho abrupto ou de retrações defensivas.
Ajuda a simbolizar respostas emocionais desorganizadas – como choro intenso, reações corporais, evasivas ou silenciamentos, que precisam ser compreendidas e acolhidas, e não apenas evitadas.
“Mas é por causa do financeiro…”
Essa é uma preocupação legítima, e jamais deve ser desconsiderada. Porém, é preciso entender que a cadência quinzenal é uma indicação clínica, não uma escolha meramente prática ou baseada na melhora inicial dos sintomas.
Espaçar sem sustento interno pode trazer riscos reais:
Retorno dos sintomas com mais intensidade
Surgimento de novos sintomas
Estagnação no processo
Interrupções simbólicas que dificultam a elaboração psíquica
É por isso que essa decisão deve ser conversada com o analista, não tomada unilateralmente. O risco de transformar um alívio momentâneo em uma falsa cura é grande.
O que acontece nas sessões em que “não tenho nada para dizer”?
Esse é, muitas vezes, o lugar fértil da análise. Quando a urgência cede, abre-se espaço para que conteúdos mais simbólicos e profundos emerjam. É nesse suposto “vazio” que surgem os sonhos, os lapsos, os pequenos grandes detalhes do cotidiano que revelam muito mais do que o sintoma em si.
É quando o sintoma sai de cena que o sujeito pode, enfim, começar a aparecer.
Psicanálise não é apagar incêndio
É compreender por que a casa pegou fogo. É descobrir quem você é, quando não está apenas sobrevivendo. É aprender a construir moradas internas mais sólidas, com espaço para sentir, elaborar e viver com mais inteireza.
Um convite à reflexão
Se você está nesse ponto do processo e cogita espaçar, pergunte-se com honestidade:
"Estou me despedindo da dor, ou fugindo da profundidade?"
A frequência semanal é mais do que um ritmo de agenda. É um ato de presença consigo mesmo, um compromisso com o que há de mais essencial em você.
Autora: Gisele Chiappim
Psicóloga | Psicanálise | Neuropsicologia